Entenda por que a morte do presidente do Irã vai desencadear grandes brigas

O então chefe do Estado não era muito bem visto pela população iraniana

A morte do presidente Ebrahim Raisi no último domingo (19), o segundo homem mais importante na hierarquia do Irã, em um acidente de helicóptero na província iraniana do Azerbaijão Oriental, pode acabar desencadeando uma briga voraz pelo poder na república teocrática islâmica. Visto como um dos sucessores do aiatolá Ali Khamenei, Raisi foi o responsável por um regime totalitário e repressor desde o início do seu mandato iniciado em 2021.

No Irã, o presidente lidera o governo e age como executor; o líder supremo chefia o Estado, concentra poderes e a tomada de decisões estratégicas. Aos 85 anos e há 35 anos no comando da república dos aiatolás, o clérigo Khamenei será fundamental na escolha de um candidato igualmente ferrenho para ocupar o cargo de Raisi, provavelmente por meio da convocação de novas eleições, em 50 dias.

Até lá, a chefia do governo será ocupada pelo primeiro vice-presidente, Mohammad Mokhber. Na visão do analista Jason Brodsky, da Iran International TV, a morte do presidente não mudará os fundamentos das políticas do regime: “O líder supremo permanece em sua cadeira e é o comandante-chefe constitucional”, disse (via G1).

Rumores sobre a saúde deteriorada de Khamenei inflamam, no entanto, as especulações sobre o seu possível substituto. Por conta disso, de acordo com Brodsky, a morte de Raisi tem o potencial de perturbar a política de sucessão, tendo em vista que ele seria um dos principais candidatos a ocupar o lugar do chefe dos aiatolás. O clérigo Mojtaba Khamenei, o segundo dos seis filhos de Khamenei, também figura como outro forte concorrente para ser o seu sucessor.

Embora o nome de Mojtaba possa surgir, uma sucessão familiar seria politicamente problemática. Afinal de contas, primeiro Khomeini e depois Khamenei argumentaram que o governo hereditário sob o xá era ilegítimo e, portanto, teriam agora dificuldade em vender a liderança hereditária ao povo iraniano“, destaca Shay Khatiri, iraniano exilado e observador do think tank Middle East Forum.

Popularidade controversa

Ultraconservador, Raisi não era visto como um presidente popular entre os iranianos. Implantou a linha-dura na adesão estrita à lei islâmica, apoiando os serviços de segurança para reprimir dissidentes nos protestos que varreram o país após a morte da jovem Mahsa Amini, em 2022.

Ela estava sob custódia porque teria violado o código de vestimenta, também impulsionado no governo de Raisi. A onda de manifestações traduziu a insatisfação interna e resultou na detenção de mais de 22 mil pessoas.

Raisi não tinha, de forma alguma, o cargo de líder supremo assegurado. Embora a solução de continuidade do regime deva seguir adiante, sua morte trágica movimentará uma nova dança das cadeiras também em torno da sucessão de Khamenei.

Acidente

Segundo informações da imprensa oficial iraniana, o helicóptero caiu numa região montanhosa do Irã em razão das más condições climáticas durante um voo que transportava Raisi e outras autoridades que voltavam do Azerbaijão. A queda da aeronave ocorreu entre as aldeias de Pir Davood e Uzi, na província iraniana de Azerbaijão Oriental, cerca de 600 km a noroeste de Teerã, a capital iraniana.

Além de Raisi, a queda matou o chanceler do Irã, Hossein Amirabdollahian. A aeronave transportava, ainda, Malek Rahmati, governador da província iraniana do Azerbaijão Oriental, e Hojjatoleslam Al Hashem, líder religioso. As mortes dos dois não foram confirmadas, no entanto, mais cedo, a imprensa oficial informou não haver sinal de sobreviventes no local da queda.

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